Clima de incertezas favorece a captação de previdência privada

Um universo ainda relativamente amplo para ser explorado diante de um ambiente de incertezas que acaba por estimular a poupança. Essa é a combinação de fatores que, na visão de especialistas de investimento, explica em boa medida a forte captação de recursos que vem registrando a previdência privada neste ano, à despeito da recessão econômica. Segundo o Valor Econômico, no primeiro semestre, entre aplicações e resgates, as carteiras que recebem recursos dos planos PGBL e VGBL atraíram mais de R$ 15 bilhões, aponta um levantamento realizado pela NetQuant, com base em 1.079 fundos informados na base da Susep.

O total representa um crescimento de aproximadamente 34% em relação ao registrado no mesmo período do ano passado. Isto confirma a tendência de retomada esboçada pelo segmento já na segunda metade de 2014, após um período de desaceleração associado a resultados ruins. Conforme lembra Cláudio Sanches, diretor de produtos de investimento e previdência do Itaú, os últimos dois anos não foram tão bons, especialmente 2013. Naquele período, os fundos, que haviam iniciado um processo de alongamento dos prazos das carteiras, acabaram pegos no contrapé pela alta da taxa Selic.

Apesar de ter afugentado investidores em uma situação atípica para o setor, o momento foi visto como uma oportunidade para educar o cliente. Este ano, afirma Sanches, embora difícil para a economia, tem sido marcado por um aumento dos aportes de previdência. “O cliente que ainda tem capacidade está poupando mais e postergando o consumo”, afirma. Para ele, trata-se de uma tentativa de se proteger. De fato, o aporte médio por cliente no Itaú, segundo o executivo, aumentou 11% no primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2014.

No banco, o grande fluxo de recursos vem desse grupo de pessoas que costuma fazer contribuições maiores, mas Sanches nota também o aumento da base ‒ hoje formada por 2 milhões de clientes ‒ como resultado de um esforço de venda de planos com contribuições mensais. “Esse é um cliente que não tem muita sobra de dinheiro, mas começa a ter uma disciplina maior de poupança.” São aportes menores, mas que já representam 20% do volume de captação do banco e têm começado cada vez mais cedo, conta o executivo.

A partir da adoção pelo banco de um algoritmo ‒ o conceito 1, 3, 6, 9 ‒, Sanches diz que ficou mais fácil para o indivíduo saber quanto tem de acumular. Quem tem 35 anos, exemplifica, para manter o padrão de vida atual na aposentadoria, precisa ter acumulado uma reserva de um salário anual. Aos 45, três salários anuais; aos 55, seis e, aos 65 anos, nove salários anuais. “Essa é uma conversa que tem facilitado a discussão da previdência com o cliente”, diz.

O Itaú não informa a evolução no número de clientes com plano de previdência, mas diz que foi registrado crescimento na quantidade de planos no semestre, da ordem de 14%, para 3,2 milhões ‒ um mesmo cliente pode ter mais de um plano.

Na Brasilprev, destaca Altair César de Jesus, superintendente de investimentos, a cultura previdenciária cresce a passos largos. De acordo com o braço de previdência privada do grupo BB Seguridade, o último dado disponível, de maio, mostrava uma base de 1,8 milhão de clientes no segmento, um crescimento de 8% em relação ao mesmo período do ano passado. Em termos de fluxo, conta o executivo, também houve aumento dos aportes médios dos já investidores, na faixa de 11% em igual base de comparação.

Ele lembra que as contribuições acompanharam o crescimento da renda. Há ainda, segundo ele, uma maior conscientização das pessoas de que quanto mais renda, menos se pode contar com a previdência pública, o que aumenta potencialmente a demanda por planos privados ‒ no BB, principal canal de distribuição dos produtos da Brasilprev, seus produtos alcançam apenas 3,3% de um universo de 55 milhões de clientes.

Em seguradoras menores, independentes, o crescimento é ainda maior em termos percentuais. Na Porto Seguro, conta Marcelo Picanço, diretor-geral responsável pela gestão de investimentos e fundos de previdência, o segmento acumula crescimento de 90% no ano. “Ainda existe espaço para aumentar o alcance da previdência. A grande massa dos brasileiros não tem uma previdência complementar. Só o fato de você estar buscando vender para quem não tem nada ajuda bastante”, destaca.

Na visão de Picanço, o mercado está longe ainda da saturação, especialmente o de VGBL, voltado para quem faz a declaração de imposto de renda simplificada, é isento ou pretende contribuir com mais de 12% da sua renda bruta anual. “Como no mercado brasileiro não tem uma trava de liquidez no curto prazo, o cliente não vê como um problema tão grande investir, porque pode sacar se houver algum problema, como desemprego”, diz.

A crise é um fator de atenção, uma vez que pode afetar toda a indústria de investimento, inclusive a previdência, mas essa em escala menor, acredita Felipe Bottino, gerente de produtos de previdência da Icatu Seguros.

Na visão do executivo, é possível esperar uma queda no número de aportes esporádicos, mas é durante uma crise que a pessoa se dá conta da necessidade de ter uma poupança de longo prazo. “A pessoa começa a ver os riscos, como o de desemprego, e percebe melhor a importância de ter uma reserva. Se a crise piorar, as pessoas podem ter de usar as reservas, mas ainda não identificamos esse movimento. A previdência é um setor defensivo.”

Fonte: Valor Econômico via CVG-SP

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